Duas pesquisadoras de biologia dedicadas ao estudo do macaco sauá (Callicebus nigrifons) estimam que somente em Jundiaí podem existir até 2 mil exemplares dessa espécie de primata conhecidos por suas vocalizações potentes e de longo alcance, os duetos. Esse número não é um levantamento populacional, mas uma sobre-estimativa baseada no tamanho médio dos grupos e da área utilizada por eles, considerando que os sauás estejam presentes em toda a extensão da Serra do Japi.

Essa estimativa foi feita a pedido da Prefeitura de Jundiaí pelas pesquisadoras Carla Gestich e Christini Caselli, ligadas ao Laboratório de Comportamento de Mamíferos, do Instituto de Biologica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que já publicaram diversos artigos internacionais sobre estudos feitos principalmente na Reserva Biológica Municipal (Rebio).

Christini trabalhou entre 2006 e 2009 com um casal e ambas trabalharam depois, entre 2008 e 2011, com um grupo com até seis indivíduos. Nos dois casos foi necessário habituá-los com a presença das pesquisadoras, “processo necessário para que eles aceitassem que nós os acompanhássemos sem que seu comportamento fosse alterado”.

Em outras palavras, as pesquisadoras acompanhavam os animais desde o momento em que deixavam a árvore-de-dormir (ao amanhecer), ou eram encontrados, até retornarem à uma nova árvore-de-dormir, ou serem perdidos. Geralmente era preciso entrar na mata antes do sol nascer para aguardar o horário de saída das árvores-de-dormir e garantir mais um dia de trabalho.

Quintal invisível

Um dos motivos da estimativa populacional é de que os sauás são seres bastante territoriais, protegendo as áreas que ocupam, ou seja, sua de área de vida. Eles se organizam socialmente em grupos familiares formados por um casal e até quatro filhotes (em geral, nasce um filhote por ano, que amadurece em torno do segundo ano e parte em busca de parceiros a partir do terceiro). Possuem áreas de vida bem definida, que são defendidas de forma muita ativa quando contam com recursos valiosos como árvores frutíferas.

A vocalização é o principal meio de anunciar a presença e posse das áreas, mas em encontros com grupos vizinhos pode haver ameaças como arqueamento do corpo e eriçamento de pelos e até perseguições e brigas (estas, como último recurso). Mas nem tudo é briga e alguns comportamentos inusitados também podem ser observados, como cenas de brincadeira com outros primatas da serra como o sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita).

No entanto, quando o assunto é comida os sauás podem expulsar os saguis e até aves, como os jacus, das árvores onde se alimentam. Não houve registro de interações com bugios, mesmo porque essa espécie não foi registrada formalmente na Serra do Japi, sendo mais comum nas áreas rurais do outro lado da mancha urbana de Jundiaí.

Tradução difícil

Os sauás são bastante comunicativos vocalmente, utilizando vocalizações mais discretas e baixas (dentre elas os assobios) a vocalizações mais longas e altas. A observação de seu uso no comportamento, aspecto chamado de etologia, pode ser comparada com o aprendizado de um idioma desconhecido.

As vocalizações mais discretas são utilizadas para comunicação entre animais de um mesmo grupo, quando próximos uns dos outros, servindo para manter o contato entre seus integrantes (que comem juntos, descansam juntos, brincam juntos, etc.) em qualquer horário do dia.

Outras são mais altas e longas, podendo ser ouvidas a distâncias superiores a 500 metros e são usadas para a reaproximação dos integrantes do grupo familiar ou para a comunicação com grupos vizinhos. Ocorrem geralmente pela manhã, quando estão mais ativos.

Em alguns momentos podem ser emitidas em forma de “coro” por vários grupos vizinhos mas, geralmente, as vocalizações de longo alcance acontecem em grande parte na forma de duetos, feitos pelo casal reprodutor de cada grupo, algumas vezes reforçados pelos jovens. O maior nível de intensidade, obviamente, ocorre na época do ano com maior produção de frutos para marcar a defesa dos recursos necessários para sua sobrevivência.

Durante as tardes, geralmente os sauás costumam ser mais silenciosos e ficam ainda mais perto da sua árvore de dormir.

Dieta flexível

De acordo com o trabalho de observação de Carla Gestich e Christini Caselli, os sauás não se alimentam apenas de frutos, mas também complementam sua alimentação com flores, sementes e insetos. “Os frutos são mais fáceis de digerir e contém muita energia, mas nem sempre estão presentes em grandes quantidades na mata. Em alguns períodos do ano eles consomem folhas e outros alimentos menos preferidos, como insetos. Mas sempre buscam esses complementos de proteínas e nutrientes que não estão nos frutos”, explicam.

Em resumo, os sauás apresentam uma dieta rica em energia para permitir suas atividades diárias, mas também balanceada, que garante o consumo de proteínas, vitaminas e outros nutrientes importantes para a saúde.

Distribuição limitada

O motivo dos sauás viverem na área da Serra do Japi e estarem menos presentes em outras regiões é a necessidade dos ambientes florestais. “Mas também são vistos em fragmentos florestais bastante alterados, embora não saibamos o grau de antropização que limitaria sua ocorrência”, observam Carla e Christini. Um dos motivos é que são realmente tímidos e ariscos, evitando sempre que possível o encontro com seres humanos. Outro é que ambientes alterados podem expor condições como temperaturas mais altas ou ventos mais fortes, além da vulnerabilidade a predadores e caçadores.

Mas o maior motivo da menor chance de ocorrência de sauás em ambientes muito alterados é a falta de recursos para sua sobrevivência, como alimentos e árvores adequadas para uso como dormitório. Embora possam ajustar sua dieta e reduzir o número dessas árvores utilizadas para dormir, adaptando-se para dormir em condições menos favoráveis, existe um grau de alteração em que os recursos podem se tornar escassos impedindo a sobrevivência da espécie.

Microclima

Variações na temperatura levam a mudanças de comportamento dos sauás. As pesquisadoras verificaram variações nas atividades do grupo, como maior tempo se alimentando em meses mais frios, ou a busca por micro-hábitats sombreados em horários mais quentes.

“Apesar de variações no comportamento serem estudadas apenas em regiões com temperaturas extremas (como desertos e geleiras), mostramos que flutuações de temperatura, mesmo pequenas, exercem grande influência no comportamento e na forma como os sauás interagem com seu ambiente. Assim, destacamos a importância de incluir fatores microclimáticos em estudos ecológicos em regiões tropicais”, afirmam as pesquisadoras, citando que a redução de florestas também pode causar alterações de microclima, resultando em mudanças na forma da interação das espécies com seu habitat para sobreviver.

A observação ganha sentido diante de estiagens intensas como em 2014, que atingiu a Serra do Japi, um dos maiores refúgios de biodiversidade do interior paulista e, portanto, do Estado.

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