Acredite se quiser: com aprovação de sua mais alta corte de justiça, a República Dominicana acaba de decretar que descendentes de negros haitianos sem documentos, que entraram no país desde 1929, perdem sua cidadania.

Calcula-se que 250 mil pessoas, cerca de 2,5% da população, deixam de uma hora para outra de serem cidadãos do país onde nasceram e vivem, a maioria há muitos anos.

É gente que nada tem a ver com o Haiti, inclusive fala espanhol, não o francês dos haitianos.

O racismo tem profundas raízes na República Dominicana.

Inicialmente colônia da Espanha, dividindo a ilha de Hispaniola com o Haiti, o país proclamou sua independência em 1821.

Logo no ano seguinte, foi conquistado pelos exércitos do Haiti, cuja população é negra, que impuseram a abolição da escravatura.

Só 12 anos depois, em 1844, a República Dominicana recuperou sua independência.

É verdade que, ainda no século 19, a Espanha voltou a dominá-la por alguns anos, e os EUA iniciaram uma série de intervenções militares que continuaram pelo século 20.

Seu objetivo foi sempre defender os interesses de suas empresas que, ao lado de latifundiários locais, exploravam plantações de açúcar em grande escala.

Buscando mão de obra barata, o setor açucareiro importava trabalhadores haitianos, sem trabalho na fraca economia desse país.

Mas o preconceito contra os antigos dominadores negros continuava forte.

E, em 1912, o governo dominicano, para evitar a “progressiva negritude da população”, decretou que somente um número limitado de negros poderia entrar no país.

Os ricos latifundiários não se tocaram.

Afinal, tinham muita força no governo e continuaram importando haitianos em massa. E a tratá-los de forma desumana, amontoados em barracões, sem condições mínimas de saúde e conforto, sem  quaisquer direitos civis.

O governo nada fez para forçar nem o cumprimento de seu decreto, nem a melhoria da miserável vida desses pobres trabalhadores.

Eles continuaram no país, tiveram filhos e assim a população negra de origem haitiana foi crescendo na República Dominicana.

O ditador Rafael Trujillo, bom amigo dos EUA, esforçou-se para reduzi-la.

Ele foi um dos mais cruéis tiranos da safra patrocinada pela política americana nos tempos da Guerra Fria, governando autocraticamente por 31 anos.

Em 1937, ordenou o massacre de 20 mil negros haitianos, com o pretexto de estar “limpando a fronteira com o Haiti.”

Muitos anos depois, assassinado Trujillo, com o apoio dos americanos do qual se tornara um aliado incômodo por seu excesso de crimes, o sucessor Joaquin Balaguer foi também racista, mas menos violento.

No seu livro, “A Ilha ao Avesso”, publicado em 1983, Balaguer afirmou, entre outras pérolas, que os haitianos ainda estariam tentando invadir o país dominicano.

Agora, a arma secreta desses insidiosos negros seria “biológica” pois eles se multiplicariam com rapidez comparável à dos vegetais.

O governo atual avançou muito no projeto racista, não vacilando em tratar os cidadãos de origem haitiana de forma desumana.

Despojados da cidadania dominicana, eles perderão seus empregos no setor formal da economia; não poderão se matricular em escolas; não poderão investir em fundos ou seguros; não poderão abrir contas bancárias; não poderão herdar, nem mesmo viajar para fora do país, pois não mais terrão direito a passaporte.

Foi assim que a campanha anti-semita começou na Alemanha nazista.

Mas a reação da população está sendo diferente na República Dominicana.

Os membros da oposição e entidades de direitos humanos  manifestaram-se fortemente contra, levando o caso à Corte Internacional de Justiça.

500 personalidades , de todas as áreas, lançaram uma proclamação, condenando e exigindo a revogação do decreto racista.

A Comunidade Caribenha de Nações, da qual a República Dominicana faz parte, também manifestou sua objeção.

E a ONU denunciou a chocante iniciativa do governo dominicano como violação da Declaração Internacional de Direitos Humanos.

Espera-se que o golpe mais contundente venha do povo, nas próximas eleições parlamentares, em maio deste ano.

Terá uma boa chance de se opor ao racismo, derrotando os candidatos  do partido do governo.

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